quinta-feira, 5 de outubro de 2017

A Volta do Taciturno

Voltou como um tiro disparado à queima rouba
Como um tiro com bala de ganhão
Barulho!
Bem na minha cabeça, bem no meio do estomago.
E eu que flertava com a outra, com a manhã
Volto agora a minha velha amante da adolescência.
A noite, não mandou mensagem, não postou fotos para me provocar ciúmes
Não me telefonou bêbada dizendo em prantos que eu era o amor de sua vida.
Ela apenas veio, entrou
Tinha a chave
Eu mudei de casa mas carreguei a velha fechadura.
Deitou-se ao meu lado, e agora me faz escrever louvores de amor às 05:04 da manha.
A noite não sente ciúmes
Mesmo sentindo em minha boca o gosto da boca da outra
Não sente ciúmes mesmo sabendo que eu tentei ser um bom esposo ao primeiro raio de sol
Que acordei cedinho para correr na orla da praia do comodismo
Que comprei pão quentinho na padaria
Que peguei as primeiras filas dos bancos para pagar minhas contas, deixando sempre o troco com a atendente que sorria com olhos de sono gritando para mim que ela também já fora amante da outra.
A noite voltou como se ela jamais houvesse saído. Como se entre eu e ela não tivesse passado uma terceira. A noite negligencia a rivalidade. Não se incomoda com as cartas de amores que ela não me escreveu e que eu guardo como quem guarda um tesouro.
A noite volta

Deita na cama comigo, me faz fumar cigarros, ler poemas, me faz chorar lembrando do amor que nunca mais será.

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Monólito




Ao completar trinta anos, você ganhará os olhos duros dos sobreviventes. Só verá sua amada na parte da manhã e da noite, só encontrará seus pais de vinte em vinte dias. E quando seus velhos morrerem, você ganhará um dia de folga para soluçar e gritar que deveria ter ficado mais próximo deles. Sorria, você é um jovem monolito e a vida vai ser pedrada. O trabalho é uma grande cadeia e você sentirá muito alívio por ter uma. A cadeia engrandece o homem, o sangue do dinheiro tem poder. Reze. Reze ajoelhado por uma carreira, dê a sua vida por ela. Viva como todo mundo vive, você não é melhor que ninguém. Porque o dinheiro move montanhas, o dinheiro é a igreja que lhe dará o céu. Sorria, você é um jovem monolito e o mundo é uma pedreira. Eles irão moer você todinho. De brinde, muitos domingos para chorar sua falta de tempo ou operar uma tendinite. Nas terríveis noites de domingo, beba. Beba para conseguir dormir e abraçar mais uma monstruosa segunda-feira. Aquela segunda-feira que deixa cacetes moles e xoxotas secas para sempre. A vida é uma grande seca, mas ninguém sente calor: Nas salas refrigeradas, seus colegas de trabalho fabricam informação e, frios, sonham com o dia dez do próximo mês. Você é o Babaca do Dia Dez, não há como mudar o seu próprio destino. Babaca que acorda assustado, porque ninguém deve atrasar mais de vinte e cinco minutos. Eles descontam em folha e você é refém da folha, do salário, do medo. Ninguém tem o direito de ser feliz, mas você ganhará a sua esmola de seis feriados por ano. E todos nós vamos enfrentar, juntos, um imenso engarrafamento até a praia. Para fingir que ainda estamos vivos. Para mostrar que ainda somos capazes de sentir prazer. Para tomar um porre de caipirinha sentado em uma cadeirinha de praia. É uma grande solução. E você ainda ganhará quinze dias de férias para consertar a persiana, pagar contas, fazer uma bateria de exames. Ninguém quer morrer do coração, ninguém quer viver de coração. Eu não duvido da sua capacidade de vencer: Lembre disso no primeiro divórcio, no primeiro infarto, no primeiro AVC.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Verdade



Você não fala comigo
Você responde
E assim
Nada do que disser
pode ser usado contra você.
Abstenica
De mim
E do mundo

domingo, 30 de abril de 2017

Mangue-cerrado-towm


Goiânia depois de agosto vira o inferno
Seca
Quente
Corpos suados dentro do eixo-anhanguera
Os shoppings refrescam quem pode pagar
Eu fujo do calor na esquina mais imunda da cidade
Bebo cerveja, falo alto, como pastel frito na mesma gordura há 30 anos
Eu nunca quis levar ninguém lá
Lá é sujo, lá tem barata, não tem garçom
Eu nunca quis ter companhia de ninguém
ali onde era o meu buraco
Mas quis você
Te convidei pra entrar, sentar e tomar uma cerveja
Como um caranguejo no mangue

Convidei você para acasalar no barro
Sujos de lama
O sol queima menos nossos corpos  

Poema de 30 de Abril






Belchior morreu
Um rapaz teve o cranio esmagado por um policial, ele ainda não sabe, mas virou noticia 
Hoje teve Eliana, Celso e Silvio na TV e nenhum deles falaram do rapaz, nem de Belchior 
Perdi o onibus de novo
Hoje ela não veio 
Foi um dia normal
Regado de desgraças.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016










Viajar é útil, exercita a imaginação. O resto é frustração e esforço. Nossa viajem é imaginaria. E está é a sua forçar.  Vai da vida à morte. Homens, animais, cidades e coisas. É tudo inventado. É livro, ficção.  Litrré disse isso, e ele não erra. E qualquer um pode fazer o mesmo. Vou fechar os olhos e está do outro lado da vida.  (Louis- Ferdinand)






  Somente os tolos acreditam que devemos conjugar matrimonio com aqueles que já amamos, como se o altar  fosse uma especie de atestado do encontro  que tivemos com o que nos traz felicidade, e portanto, celebramos um pequeno porto de segurança em meio aos equívocos. Uma celebração máxima ao fim das incertezas.  Josefa, casou-se comigo na esperança de ser amada.
Casou-se comigo por crer que um dia, outras leriam sua historia de amor, e sobre tudo por imaginar que, estas tais ‘’outras’’ um dia a invejariam. Invejariam a historia que elas mesmas sabiam nunca serem capaz de viver. E Josefa, sendo a esposa de um escritor, poderia ser a única que, estava ali, retratada em palavras, como a mais bela dentre todas as mulheres. A quem lesse meu ‘’novo’’ romance, não restaria duvidas, Josefa era amada por mim. E o amor, seja por meio de um rito de celebração, seja em um texto, só serve para alguma coisa, só é sentido como real, se puder ser visto, fotografado, falado sobre.
Mal poderiam saber que, quem escreve, é por natureza uma espécie de canalha. Um infiel. O escritor é sempre aquele que, tornou-se o que se tornou, somente por ser capaz de amar no plural. Aos leitores cabem a miragem, a força do hábito de acreditar em um amor único, singular, excepcional. Quanto mais verídica a miragem possa parecer ao olhos de quem  vê, quanto menos imperfeições tiverem, por mais hábil deve ser tomado o escritor.  A mulher que é eternizada em qualquer romance é sempre outra. Uma espécie de amante eterna. A cada um cabe a sua Helena.
Nunca voltei a publicar nada após meu casamento. Não fui capaz de escrever uma pequena frase sequer após jurar amor eterno à Josefa. Por mais que todos cobrem mais um livro, e acima de todos, a própria ,a que acredita ser minha inspiração.
Josefa, antes de me amar, me leu.
 Talvez, na verdade, resida neste fato, todo o seu amor por mim. Tal como deve residir na impossibilidade, todo o amor de Julieta por Romeu. Ou na suspeita de traição toda a devoção de Bentinho. É preciso muito mais do que beleza para que, se faça amor. É preciso, antes de corpo, ficção. Antes do beijo na penteadeira, é preciso rabiscar seus nomes no muro dos Pádua. Josefa, nunca deitou-se comigo, mas sim, com o romancista que, ela leu e, diferentemente de todas as outras que tentaram, ela sim, o conquistou. Vê-la descrita em um dos meus livros, como a única amável dentre todas as outras, séria a sua consolidação máxima como amante. Séria a prova irrefutável, aos olhos de todos, que ela é e foi amada.
  Séria para ela o orgasmo que eu nunca fui capaz de lhe proporcionar na cama. É uma pena que assim como um homem que, independente do esforço, nunca será capaz de agradar sexualmente sua mulher, eu também sou brocha com as palavras perante Josefa. Sou como o amante que sempre falha, sempre amolece na presença da esposa, e por isso optar pelo sono, disfarçado de descanso ao sexo. Mas milagrosamente satisfaz a amante. Três ou quatro vezes na semana, com todo o furor virilidade  que, lhe é possível ter. Somente sou capaz de escrever sobre o copo de outra. Outra que não seja Josefa. O meu novo romance é antes de tudo, uma bela traição. E como, quando o assunto é amor, somos sempre moralistas, não deve jamais ser publicado. Todo leitor espera uma amor, seja ele possível de ser vivido pelas personagens ou não, isso não importa. O que importar é que o romance, fale de tudo, menos sobre a verdade. E eu sou o escritor de um livro só. Criei, há anos atrás, ainda em juventude, a minha miragem perfeita.  

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Poema de dissolução

apoiou sua cabeça em meu ombro
E feito passarinho se aprumou em mim, e dizendo sentir frio, enfiou suas mãos por debaixo de minha blusa verde-limão
Eu tentei beija-la
Foi ali na altura da Avenida 85, no ponto de ônibus numero 163
Onde ela me disse não.

Não, enquanto eu estivesse com a outra
Não!
             ''aquilo era errado''.
Ela ainda acredita em certo e em errado.

Eu não ligo para a outra
E isso faz ela gostar ainda menos de mim
Ela fecha cerrar os lábios,
Me encara com o olhar de quem diz ‘’me beija’’, mas vira o rosto e sorrir quando tento fazê-               lo.  
Só de raiva, escorro a língua pela pele de seu rosto,
Ela fica toda babada
 Solta uma gargalhada baixinha, ela não faz nada alto
Ela gargalha
 A gargalhada mais bonita e silenciosa que já ouvi na vida.

Eu tento beija-la mais uma vez.
Ela diz não
Fecha o semblante, fala da outra.
Ela gosta da outra mais do que gosta de mim.


sexta-feira, 22 de julho de 2016

Vermelho ou o Homem-Animal


''Como explicar que o homem, um animal tão predominantemente construtivo, seja tão apaixonadamente propenso à destruição? Talvez porque seja uma criatura volúvel, de reputação duvidosa. Ou ainda talvez porque seu único proposito na vida, seja perseguir um objetivo. Algo que ao final, ao ser atingido, não é mais vida, mas o principio da morte''- Dostoiévski 

 

Como o mais baixo dos animais irracionais, o homem, ao sentir-se ameaçado, ou ameaçará de volta ou fugirá de seu predador. Seja como for, é de se esperar que, seja da natureza humana, ser covarde ou violento para com aquilo que lhe provoque medo.
Em uma situação extrema, onde deva escolher entre matar ou ser morto, o homem sempre escolherá matar.  É muito mais fácil carregar culpa do que aceitar de bom grado a finitude. Não somos diferentes do animal selvagem que destroça seu semelhante por comida ou por sexo. A única diferença é que destruímos por futilidades. Mentimos e engamos por diversão.  Chamamos sexo por amor e matamos em nome de ‘’ algo maior’’, mais digno, que combina melhor com a suposta natureza elevada do ser humano. Com isso é como se apaziguássemos o mais animalesco de nossa ação e nos tranquilizássemos frente ao horror do selvagem que ainda nos habita. Como se não matássemos simplesmente por algo ou alguém ameaçar nossa satisfação, seja ela de qual ordem for.
Não existem homens mais elevados do que outros. Não há, por exemplo, aqueles que sabem resolver seus conflitos de forma educada, de dita forma ’humana’’. O que há, são aqueles que não foram ameaçados ou humilhados o suficiente para reagirem. O suficiente para despertar o animal que neles vivem. Todo homem é em si, um monstro em potencial.
E eu, seu marido, sou antes de qualquer coisa, homem.
Pena que você tenha descoberto isso tarde demais.
Antes de fazer, antes de cometer o meu ato grotesco, eu quis, eu me esforcei, para te falar sobre ela. Para sentarmos e resolvemos tudo como dois adultos. Mas não havia palavras para descrê-la. Ela é indescritível. Disso eu soube desde quando a vi primeira vez. Soube que, ela era a própria reencarnação do diabo em pessoa. Sempre pensei o diabo como uma mulher, o que eu não sabia, o que eu não podia saber, era que o diabo era branco, ruivo e de olhar viciante. O diabo veio até mim, deitou-se em minha cama. Mas, eu cavei sozinho minha cova até o inferno. Cavei com minhas próprias mãos. Mãos que hoje não estão sujas com barro, mas sim, com sangue. O demônio não leva ninguém para o inferno, ele apenas mostra o caminho.

O diabo é uma invenção do homem.
A tentação é uma invenção do diabo.
A morte é uma criação de Deus.

Você sempre foi tão linda, tão meiga, tão tudo para mim.
Não pense que não lhe amai. Se fiz o que fiz, sobretudo foi por ama-la. O homem que ama, mata.
A ironia é invenção da mulher.
Ninguém termina um romance ou deixa para trás um amor que ainda vive.  Somente a morte pode separar dois amantes.  Há aqueles que carregam uma facilidade maior em dizer ‘’adeus’’, mas esses nunca amaram de verdade. O amor é absoluto, como um bloco indestrutível, que não se dissolve a mera possibilidade de um adeus. A morte é o único fim possível e inquestionável quando se ama.
Fomos como Romeu e Julieta. A única diferença é que não matei minha amada por engano.  Não morri por ela, ao contrario, sua morte foi necessária para que eu vivesse.

Todos juntos inventaram Shakespeare.

A Vitima


Quando apoiava minha cabeça contra o teu peito, ao deitarmos juntos (na cama que nesta noite tornou-se minha lápide), e delicadamente envolvia meu corpo em teus braços, sentia-me como dentro do lugar mais seguro do mundo. Os teus braços eram a minha morada. Mal nenhum poderia me ocorrer enquanto seu corpo recobrisse o meu. Mas, como um Judas que trai com o mais gentil gesto de afeto, você me apunha-la com a mesma mão que acariciava-me há pouco.
A morte é irônica.
A dor provocada pela lâmina perfurando minha carne foi feito gelo que ironicamente queima ao tocar diretamente sobre a pele, e machuca mesmo sem necessariamente doer.  O sangue que me causou tanta vergonha quando sujei teu lençol, ao deitamos juntos pela primeira vez, agora escorrer livremente de meu corpo.  Vejo teu rosto e em um piscar de olhos, finto também tuas mãos tremulas. Enquanto como quem sente uma cólica insuportável e contorcendo-se de dor toma uma posição fetal, vejo, em flashes desconexos, formar em teu semblante uma expressão de choro e desespero, sinto o sangue, ainda quente, empoçando-se ao redor de minhas pernas. Não sinto vergonha desta vez. Sinto frio. Muito frio.
Você tampa minha boca como quando fazemos amor. Seus braços fortes surgem por detrás de minha nuca, sua mão pesada, arrancando um ou dois fios de cabelos que sempre ficam presos entre deus dedos, sufocando minha respiração e abafando meus gritos. Tal qual quando abafa meus gemidos, tua mão recai sobre minha boca. Você treme. Você sempre treme. O espelho a minha frente transmite sua expressão de dor, a mesma expressão que faz quando goza dentro de mim. A dor e o prazer devem ser como primos distantes. Sua respiração pesada. Lenta. Quente. Seu corpo perdendo força, soltando o meu aos poucos, denuncia que você terminou. Seu corpo recuando ao meu, denuncia que você alcançou seu objetivo.
Sinto a lamina saindo. Sinto você caindo ao meu lado, não sei se vejo ou penso vê, você levando sua mão até seu rosto, o que de fato sei é que tua barba estar manchada de vermelho. Manchada com o meu vermelho. De repente não vejo mais nada, tudo se torna escuridão. Não dói mais, na verdade, me sinto tão aconchegada como se estive dentro de um de teus abraços.
A primeira vez que transamos eu sentir frio e vergonha.
Hoje. No dia de minha morte, sinto somente frio.

A Amante


- Você precisa escolher... Eu me divirto com você, eu.. eu chego a pensar que te amo. Mas isso que fazemos é errado!
- Eu tenho um plano... Tudo vai se resolver... Vou falar com ela. Eu só preciso de um pouquinho a mais de tempo.
- Um pouquinho a mais de tempo?! Não! Não! Você precisa se decidir! Precisa ser logo! Precisa ser hoje! Eu não aguento mais!  Alias, ela já deve saber, já deve desconfiar. Não é possível que ela não sinta o meu cheiro em você! Eu sinto o cheiro dela em você! Eu sinto a porra do cheiro dela em você!
- Mas... Não.. Sem choro...

- Pelo amor de Deus! Seja homem! Faça algo! E faça hoje! 

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Bruna ou Não Toque em mim com esta pele que veste teu corpo



É requinte de saciados testar a virtude de terceiros (Raduan Nassar) 
‘’Se ela me chamar... Agora... Eu vou... ’’ (Zii e Zie)

Como todas as coisas banais que, de repente, tornam-se muito mais do que serias em nossas vidas, Bruna também começou como uma brincadeira, como uma molecagem, como um desses acontecimentos que julgamos nunca chegar há lugar algum e, como que uma tose seca, negligenciada, torna-se da ‘’noite para o dia’’, em uma doença maior. Bruna foi uma traiçãozinha destas à toa que, todo homem ou comete, ou deixa de cometer por pura covardia ou receio de ser descoberto, mas nunca por falta de vontade ou menos ainda oportunidade.
Mas antes de Bruna, Fernanda.
A primeira mulher. Não a primeira que amei, mas sim, a primeira a ensinar-me quase tudo sobre como amar uma mulher. Um fascínio.
Como um aluno que se vê encantado pela professora, eu via-me absorvido pela destreza de Fernanda em fazer tão bem e tão desinibidamente, aquilo que eu apenas estava começando a praticar de modo quase que instintivo. Esta mais velha, mais inteligente, muito mais segura de si do que ele mesmo (o aluno) jamais sonhou em ser algum dia, e que em algum momento, em alguma aula, larga um elogio ou um sorriso acompanhado de um olhar ao mesmo tempo gentil e malicioso que arrebata o adolescente no auge de suas efervescências. Este não tardará em relembrar a cena em seu quarto, ou durante um banho um pouco mais estendido do que o de costume. A cena repete-se. O ato repete-se.  Mas tudo fica velado, nada é dito, nada é tocado. Ele sabe que deseja a professora mais do que tudo na vida, e a professora sabe que ele a deseja mais do que tudo na vida. E isto estabelece o jogo. O fascínio. O arrebatamento do adolescente, que como qualquer virgem ao experimentar pela primeira vez os prazeres do corpo, se vicia. Corrompe-se.
Que fique claro: Nunca amei Fernanda. Mas sempre serei capaz de jurar para qualquer um, até para eu mesmo, que ela era, e que sempre seria meu primeiro e único amor. Como o aluno que sorrir da piada sem graça do professor, por precisar de nota, eu jurava amores à Fernanda por precisar de seu corpo.
Ninguém deveria ser responsável pelos amores que jura aos 17 anos
Ou, em idade alguma.                                   
Amor não casa bem com juramentos, ainda mais se estes flertarem com a eternidade.

Bruna, começou como uma coisa à toa.
Um joguinho eletrônico casual, que se tornou
Cotidiano.
Um ‘’oi’’ aleatoriamente enviado pelo facebook para uma menina bonita o suficiente para parecer-me minimamente interessante (somente um tolo, um completo idiota, não julgar pela aparência. É o que diz o livro aberto a minha frente. Eu acredito em livros).
Um ‘’oi’’ correspondido.
Todos os dias, minhas manhãs só começavam realmente quando digitava um ‘’bom dia’’ seguido de um emotion de carinha feliz e enviava à Bruna. Um ritual como café e cigarros antes de escovar os dentes.
Bruna nunca tardava em responder. Sempre on-line.
Nos recheios de meus dias, sobrava tempo e pique para todo tipo de assunto entre eu e ela. Desde aqueles mais sérios, aos extremamente banais. Dos íntimos aos mais íntimos ainda.
Sobre isso e sobre nós, nunca nos cansamos.
E como que em uma balança antiga, onde para um lado subir é preciso que o outro desça, enquanto o meu interesse por Bruna inclinava para cima a cada conversa, a cada emotion de carinha feliz enviado por ela, como que em uma gangorra, o meu encanto (antes, estático), por Fernanda, perdia forças. Caia.
A menina da tela, a menina que eu nem sequer imagino qual seja o tom de voz, o cheiro, o gosto, as manias, consegue fazer-se, insinua-se, como sendo muito mais interessante do que a mulher que tenho em minha cama todos os dias e que conheço tão bem.


Há sempre música tocando quando teclo com Bruna.
Ela não tem voz, é preciso que eu lhe dê uma.
Gal. Rita. Baby. Céu. Cae. Gil. Roberto.
Bruna tem voz bonita.
Bruna tem a voz que eu sempre quero escutar.
Ouço as frases das musicas, e com isso é quase como se escutasse o que ela pensa sobre mim e não tem coragem de digitar. Ela digita uma coisa, mas pensa outra. Ela não tem coragem de me falar o que sente ou que pensa, ela não tem coragem de falar a verdade. Ela não tem gosto, nem cheiro, mas mente como todas as outras.
‘’Ainda há fogo em mim/ Quisera sempre assim’’. Hoje é isso que Bruna pensa. Hoje é isso que a canção diz
Hoje ela sente calor.
Sente vontade.
Hoje Bruna deseja um homem de carne e osso. Talvez ela goste mais de carne do que de osso... Todas gostam mais de carne do que de osso. Eu sou puro osso.
Hoje eu não sirvo pra nada.



Não há mais Fernanda.
Ela se foi.
Aconteceu ontem ou hoje. Não sei. Não me importo. Não há mais nada que ela possa ensinar.
Desde que tenha a tela. Desde que tenha Bruna.
Tudo certo!

- Bom dia (emotion de carinha feliz)
Bruna não responde.
Ainda deve tá dormindo, penso.
Abro a janela. O cheiro da rua é ruim.
Acendo cigarro. O gosto em minha boca agora é ainda mais amargo.
Coloco música. A canção diz, ‘’Quando você voltar/ Já me encontrará refeita’’.

Hoje bruna acordou ressentida.
Deve haver um homem antes de mim em sua vida. Um de verdade. Com mais carne do que osso. Do jeito que elas gostam. E cabelo arrumadinho. Meu cabelo é cabelo de preto. Não fica arrumadinho.
Hoje, mais uma vez, ela não vai falar comigo.
Amanhã é outro dia.
Espero que hoje termine logo.

 Durmo.
Acordo.
Olho pela janela aberta do quarto, ainda é dia.
Hoje ainda é hoje.

Visualizado às 14:41.
Coloco outra canção:
‘’O retrato que eu te dei, se ainda tens, não sei... Mas se tiver, por favor: devolva-me’’
O caso é mais sério do que tinha imaginado.
Há mesmo outro homem. E Bruna ainda o ama.
Ainda se dói pensando nele.
Hoje não vai ter jeito
Ela não vai falar comigo.
Hoje ela quer as cartas de volta. Hoje ela quer uma desculpa para vê-lo uma vez mais.
Desligo a tela
O sono não vem. Hoje vai ser foda.
Amanhece.
Parece que eu dormi um pouco
Não sei.
Só sei que hoje já é amanhã.

‘’Bom dia’’ (emotion de carinha feliz’’), Bruna esta digitando
Como vai? (emotion de carinha de sono)
‘’E teve um negocio de você perguntar sobre o meu signo’’
 Ontem foi um mal entendido.
Nunca houve homem algum. Foi tudo coisa da minha cabeça.
Ontem a canção errou.
Abro a janela: hoje a rua não fede.
Hoje Bruna falou comigo.

Ela volta.
Ela entra de repente e para bem atrás de mim.
Vê eu e Bruna conversando.
Ela vê a foto.
Ela finta minhas mãos dentro da calça.
Ela diz que Bruna é uma vagabunda. Uma piranha. Uma putinha.
Ela grita.
Ela grita que é por isso que eu não dou conta! Que é por isso que eu não funciono!
Ela bate na minha cara.
Ela diz que o quarto cheira a mijo.
Assim como ela entrou, ela sai
 de repente.

‘’A tua presença entra pelos sete buracos da minha cabeça: Pelos olhos, bocas, narinas e orelhas’’
Hoje eu e Bruna transamos pela primeira vez.
Hoje eu apenhei na cara e gozei na tela.

‘’Toda palavra, sim, é uma semente; entre as coisas humanas que podem nos assombrar, vem à força do verbo em primeiro lugar’’. Hoje o livro em minha escrivaninha é outro, eu também acredito nesse.

Bruna? (emotion com carinha de cachorro com linguinha de fora. É isso que sou hoje, bruna é a dona)
Hoje a musica é em inglês. Hoje eu não entendo nada.
Pode ser qualquer coisa.
Hoje tudo pode acontecer.

Bruna enviou uma foto.
Hoje nem bom dia teve.
Enfio as mãos nas calças.
Hoje tranquei as portas.
Hoje a outra não entra.


Abro os olhos.
Meu pescoço doe e minha boca amarga.
Tudo tá escuro. A luz que deveria emanar de meu monitor, não emana.
Saio de casa.
Vou comer na rua.
Sem eletricidade nem meu fogão acende.

A moça do balcão sorrir para mim.
Ela diz alguma coisa que não entendo.
Ela tem a voz feia. Ela não tem a voz que quero ouvir.
Pago e saio. Ou apenas saio, não lembro.
Olho pra trás.
Ela mexe a boca olhando e gesticulando em minha direção, eu não escuto nada.  Corro!

Como paquerar no facebook?
É o que está escrito na capa colorida da revista bem ao lado da revista dos signos. De signo eu não gosto.
Compro um maço de cigarros e a revista.
Leio tudo.
Fumo tudo.
‘’Se deseja ter sucesso nas paqueras virtuais, é importante não demonstrar desespero. É preciso ter calma e respeitar o tempo do outro. Por exemplo: se o crush demora muito a responder, talvez ele não esteja tão interessado assim em você. Encher a caixa de entrega dele, não ira resolver nada. Você só estará demonstrando o quanto estar desesperada por atenção’’.

Eu acredito em livros. E agora percebo que também acredito em revistas.
Eu acredito em Bruna.
Eu acredito em tudo que as pessoas escrevem.

Volto pra casa.
‘’Deseja continuar o Windows normalmente?’’, me pergunta a tela?
Sim.
Desejo continuar normalmente.

Oi? (emotion de carinha feliz), 10h11min
Tá ai? 11h02min
Foto enviada, 11h13min
Emotion de carinha triste, enviada às 11h16min

Bruna está desesperada.
Se ela lesse mais, não estaria assim.
Respondo.
Ela escreve algo que eu não queria ler nunca.
Ela quer me conhecer.
Quer saber se sou de verdade. Se sou igual à foto.
Digo que sou igualzinho a foto.
Ela não acredita.
Ela é dessas que precisa ver para crer.

Vê é tudo que ela não pode.
Se ela me vê, vai querer falar comigo.
E certamente deve ter a voz feia.
Depois disso virão os beijos, longos e molhados. Do jeito que eu não gosto.
Depois vai querer vim até minha casa. Elas sempre querem vim até a minha casa.
Vai descobrir que meu quarto cheira a mijo.
Vai descobrir que eu não dou conta.
Vai ficar chateada.
Brava comigo.
Vai  bater na minha cara.
Uma vez eu apanhei na cara.
Não gostei.
Depois ela vai embora.
E eu fico.
Sozinho.

Acendo cigarro.
Hoje a musica diz, ‘’Encontrei nos braços de outra a felicidade’’
Hoje eu entendo o recado.
Tem certeza que deseja excluir Bruna N. de sua lista de contatos? (Após excluir você e Bruna N. não serão mais amigos no facebook).
Clico em tenho certeza.


‘’O amor quase nunca é reciproco.’’ É o que diz o livro aberto a minha frente.





quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Três Atos de fel


‘’Bom é descobrir que eu sou só’’ (Sofia Freire)





Primeiro Ato: Repetição

Olhando para o teto espelhado do quarto, com o corpo coberto até a altura do umbigo por um lençol cor de sujeira, que saber-se lá Deus quando foi lavado pela última vez, respirando tão mansamente que sua presença se fazia quase que imperceptível, como um cadáver semi-nu e de olhos abertos. Com uma expressão de assustado a tomar-lhe o semblante, como a expressão de uma criança que acabara de descobrir o que é a morte, através da perda de seu animalzinho de estimação e sem saber como reagir, sem entender o que acabara de acontecer, simplesmente fica paralisada contemplando o pequeno corpo sem vida do animal. Encarando seu reflexo que o encarava de volta, lá do alto, como que o sentenciando, julgando-o pelo mais antigo dos crimes. 
Corpo suado, melado. 
Separado do meu por uma poça branca e ainda molhada, talvez até mesmo ainda quente, bem localizada ao centro da cama.
Eu nua, mergulhada no silêncio típico daqueles que cometem um crime premeditado, e que pego em ato, não rebatem as acusações ou nem ao menos ousam clamar por perdão.
- Eu sair de casa, peguei um ônibus e vim para o motel. E agora eu tô apaixonado... O que há de errado nisso?! Eu me sinto sujo... Eu não... Eu não deveria me sentir assim, afinal amor é amor... Ninguém deveria se sentir culpado por amar... Eu.. Eu nunca fiz algo assim... Você... Você já vez algo assim antes? – Ele indaga sem sequer virar o rosto em minha direção. 

- Já – Respondi, pondo-me em pé, procurando minha blusa.

-Aonde você vai? – Sem tirar os olhos do teto.

- Fazer isso de novo. 



Ato Segundo: Dias Felizes

Éramos os mais absolutamente normais. Em nós nada de especial, nada de incomum. E como qualquer ser normal, inventávamos nossa própria epopeiacriávamos nossa magnífica historia de amor que certamente era mais dramática e muito mais improvável do que qualquer outra historia de amor já antes inventada. Eu era a depressiva, a leitora de Clarice e de Raduan Nassar, a que ouvia Caetano e que chorava no cinema. Você o homem forte, que entendia de política, leitor dos clássicos ociosos, cheios de um vazio existencial que você se esforçava para ser o seu charme, e que eu fingia ser o meu fetiche. Fumante, poeta, civilizado. Tudo aquilo que eu não era e que você jurou no momento em que nos beijamos, que um dia me ensinaria a ser. Mas o que você não sabia, não poderia saber, é que eu não queria ser nada além do que ser como que um contrapeso na balança. Ser sua Capitu nesta sua fantasia de ser um homem. Não precisávamos de Escobar, você tinha Hesser, Salinger, os filmes de Brunel e toda aquela palhaçada francesa que te ensinava a ser o intelectual que, em sua opinião, toda mulher amava.
Você foi meu primeiro homem. Eu acreditava ser minha obrigação ser tudo aquilo que lhe faltava. Ser Dulcinéa incansável e impossível. Ser Madeleine culta e sacana. Ser Galateia fecunda e irresistível, moldada por suas próprias mãos para outros homens admirar. E para além de tudo, obviamente, ser a mais bonita. Não me importava em ser tudo isso, em fingir ser para você o que você quisesse que eu fosse.
Você ensinou-me a ser sua também na cama, do jeito que queria e quando queria. Nunca havia sido de ninguém, não sabia o que devia ou não fazer. Era aquilo. Ser sua me bastava. Eu era feliz. 



Terceiro Ato: Pequeno Príncipe  

Você não tinha o direito, sabia?
Odiávamos a frase ‘’eternamente responsável por aquilo que cativas’’... Mas aquilo era a mais pura verdade!  Você não tinha o direito de me deixar! Não porque você fosse meu, não era isso. Era o contrario... Você não tinha o direito de me deixar porque eu era sua.
Você era meu autor. Meu escultor. Era você quem me dirigia na vida...
Naquele dia de janeiro em que você escreveu seu nome em minha coxa, era isso que significava, era isso que o seu nome em meu corpo queria dizer, que eu era propriedade sua. Sua responsabilidade.
Você é como uma criança má, uma daquelas que não basta largar de lado o brinquedo velho, é preciso quebrá-lo antes de abrir um novo.
Cresci, me fiz mulher. Aprendi para que serve cada buraco que tenho em meu corpo, aprendi que posso mudar a cor do cabelo, posso fazer caras e bocas. Sei do vestido, da saia e da nudez. Sei do que pensam sobre mim e não têm a coragem de falar quando olham-me na rua. Sei da Santa e sei da puta.
Você me ensinou.
Você regava-me diariamente com doses proustianas, carnavalescas, com o meu primeiro porre e, demonstrando em mim tudo que é parte em que se pode deixar de ser virgem. Cresci em sua cama, afundei minhas raízes em teu lençol. Pensei ser a única rosa desse planeta... E era! O que não sabia é que o mundo, este mundo aqui de 4 metros quadrados, ficou pequeno para você. Você queria visitar outros lugares, sentir outros gostos, cheiros. Eu fiquei. Com fome, frio, sede. Você foi e eu fiquei.
Dor.
Como o cão doente que inexplicavelmente pré-sente sua própria morte, e deita-se aos pés da cama de seu dono, eu continuava a sua espera. O tempo não era mais o mesmo, o tic-tac do relógio não marcava os segundos como antes, não dizia sobre o futuro... Não dizia a hora de você chegar. Sem você nada me despertava vontade. Sem você tudo parou...
Eu não era como o doente terminal que tendo os dias que lhe restam de vida marcados no calendário, começa a perceber a beleza da vida em cada pequeno canto, ou a sentir a presença de Deus em cada minúsculo detalhe. Não, eu não tinha a data de minha morte circulada em vermelho no calendário, eu não morreria tão em breve, disso eu tinha a mais plena certeza. Esse foi meu castigo. Covarde demais para matar-me e certa da impossibilidade de sua volta, estar viva ser tornou o pior sofrimento possível. Isso você não me ensinou: morrer.
É isso que você aprende com a solidão, que ela machuca, mas não mata. Você aprende que o mais importante, o mais crucial, não é amar, é está vivo. Aprende a comer sem sentir o sabor do alimento, a sorrir sem estar verdadeiramente feliz, a acorda cedinho e ir trabalhar, mesmo morrendo de vontade de continuar dormindo. Aprende que nem sempre é preciso chorar no final do filme.
Como um enfermo que passa dias sobre o leito de um hospital, sentir dor ao tentar caminhar novamente. Chorei e gritei de dor. Cada passo era como se um músculo em minha perna se rasgasse... Cair, Cair, Cair, Cair... Mas hoje, vestindo minhas calças e saindo sem me despedir do homem que continua a olhar o teto como um cego que vê pela primeira vez as estrelas, caminhando sozinha até saída desde pequeno motel, hoje sei, estou curada.
Não há mais nada a aprender. 





segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

A garota que veio de longe




Devo confessar que, ao vê pela primeira vez em minha vida, uma garota nua, a única sensação da qual me recordo ainda hoje, é a de total estranhamento, de desconforto.
Éramos um grupo de alunos comuns, em uma escola comum de Goiânia. Nada de anormal acontecia em nossas vidas naquela época. Éramos crianças e tínhamos uma vida de crianças. Os dias se resumiam em ir a escola, voltar para casa e a passar o restante do tempo juntos, ora brincando, ora jogando videogame (coisa que na época julgávamos ser da mais alta seriedade, e por isso, ainda hoje a coloco em um patamar acima do brincar). Olhando para trás, pensando a vida de antes com os olhos de hoje, fica mais do que evidente que ... foi o primeiro grande ‘’acontecimento’’ em minha vida.
Não consigo lembrar com exatidão do dia em que chegou em nossa escola. Lembro-me que a menina extremamente magra, com manchinhas pelo rosto (não eram sardas, eram manchas mesmo) e de cabelos alaranjados, chegou a sala numero 09 em um dia chuvoso e frio. Era o começo do ano letivo de 1999. Nunca havia visto uma chuva como aquela: serena, tranqüila. Uma chuva em que os filetes de água desciam do céu como que em uma linha reta, direto para o solo, sem raios ou trovões. Apenas o som da água caindo como se um chuveiro estivesse ligado lá fora. Além de uma chuva como aquela, nunca tinha visto uma menina de cabelos ruivos antes. O rosto de ... nunca me saiu da memória. Seus cabelos emaranhados, de cor estranha, meio molhados e muito mal penteados, escondiam seus olhos (os quais eu não pude vê a cor).
Aula de matemática ou português, a coordenadora entrou sem ao menos pedir licença. Uma mulher magra e de cabelos a altura do ombro, de rosto muito fino e chupado, disse: ''Pessoal, essa aqui é a ... e ela irá passar este ano conosco. Dêem boas vindas a ela''. E em seguida um coro uníssono de vozes infantis, exclamou em alto e bom tom:‘’bem- vinda ...’’. Toda a turma desejou boas-vindas a ..., exceto eu, que continue mudo, pensando no nome que a coordenadora acabara de dizer ‘’ essa aqui é a ...’’ Eu nunca fui capaz de pronunciar aquele nome. Certamente era algo alemão ou a junção de dois nomes em um só. ... o nome mais estranho que ouvi até hoje. ‘’Muito bem ..., sente-se onde quiser.’’, disse a professora fazendo um afago nos cabelos  molhados de ... .
... Sentou a primeira cadeira a sua frente, sem levantar o olhar nem sequer uma única vez.
Durante os dois primeiros meses daquele ano, simplesmente nada aconteceu. ... chegava cedo, sentava-se na primeira cadeira da primeira fila (contando-se da esquerda para a direita. Ali pertinho da porta), e saia assim que a sineta tocava. Ao sair portão afora, entrava sempre em um carro preto, meio velho, que a esperava, sempre pontualmente. Nunca vi ... no recreio ou conversando com alguém – nem mesmo com outras meninas -. Pra ser sincero, durante os primeiros dois messes de aula, não vi sequer o rosto de ... , tudo que enxergava eram seus cabelos encaracolados (meios esfarofados na verdade), alaranjados e longos. Ora presos para cima, deixando parte de sua nuca a mostra, mas via de regra sempre soltos e avoaçados. O meu lugar cativo era a última cadeira da fila do meio. De modo que tinha a visão completa de toda a sala, e conseguia conversar sem ser notado pela professora. Era o melhor lugar para se sentar, porém, dali, tudo que conseguia vê de ... era sua nuca, ou a nuvem laranja que seus cabelos soltos pareciam desenhar.

- Ela é estranha, não? - Perguntou Paulo, meu melhor amigo desde sempre. Paulo é cerca de três ou quatro anos mais velho do que qualquer aluno da escola. Paulo nunca explicou o porque disto, e eu nunca fiz muita questão de saber. Começamos juntos já na primeira série e seguimos juntos até o terceiro ano do ensino médio. Não sei se por ser mais velho, ou seja lá por qual motivo fosse, Paulo sempre foi para mim uma espécie de tutor, de conselheiro.
Ela quem? – respondi
A menininha ali, a novata- fez um sinal com os dedos na direção de ...
Ah, sim! Muito estranha mesmo!
É... Estranha,  porém, bonita...

Nunca prestei atenção, mas Paulo tinha toda a razão do mundo, ... era mesmo muito bonita. Destacava-se (meio que literalmente) das demais meninas da turma. Na verdade, desde o comentário de meu amigo, desde aquele dia ‘’beleza’’ para mim, passou a ser sinônimo de ‘’estranho’’ de ‘’tímido’’, de ‘’fora do comum’’. ... Passou a ser um ideal para tudo que vim a considerar belo na vida. ‘’Certamente ... é tímida’’ – continuo Paulo, sem tirar os olhos da nuca de ... .
Aqueles comentários alertou-me sobre outra coisa para além da beleza de ... : Paulo, assim como eu, estava prestando atenção na nuca dela.

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O primeiro semestre na escola passou entre coisas que não consigo lembrar e a nuca de ... da qual me recordo com a nitidez de uma foto impressa. Eram as férias de julho de 1999, Paulo e eu nos encontrávamos todas as tardes, em sua casa – ele que morava duas ruas acima -, para jogarmos Super Nintendo e eventualmente futebol. No entanto, naquela tarde no meio do mês, Paulo não quis jogar nem uma coisa nem outra. Disse-me ainda ao portão que queria mostrar uma coisa que tinha descoberto. Era preciso guarda segredo absoluto.
Fiz minha promessa solene e entrei.
Pornografia.
Sempre ficávamos sozinhos. Mesmo durante as férias, os pais de meu melhor amigo nunca estavam por lá, no entanto era a primeira vez que Paulo mostrava-me aquela fita.  Disse meio apressado e eufórico que a encontroou nas coisas de seu pai enquanto procurava por um meião de futebol. Contou essa historia com a voz meio engasgada, balançando a fita no ar freneticamente, enquanto eu, sentado ao chão de sua sala, a seguia com o olhar, como se fosse um biscoito e eu o cachorrinho. Finalizou com um suspiro longo e profundo, colocando o filme para rodar. Nunca pensei que podia existir algo como aquilo, nem ao menos sabia que era permitido filmar aquelas coisas. Um filme em que a única coisa que importava eram os peitos de uma moça loira.
O que Paulo reproduzia com extrema excitação na tv de sua sala, era um soft-porn dos mais leves, mas que a época, me pareceu ser coisa de outro mundo. A atriz era loira e de seios muito, mas muito fartos, existia uma historinha entre as cenas de nudez, mas Paulo as pulava, adiantando a fita e  voltando a parar-la com extrema exatidão onde a nudez recomeçava – aquilo deu a sensação que meu amigo já assistira aquele filme milhares de vezes -. Sempre que a loirinha aparecia nua em cena, o foco da câmera se voltava para seus peitos, ora ou outra para sua fisionomia (que lembrava as caretas de alguém com muita dor), e quase nunca para o rapaz que dividia a cena com ela. Não lembro de tudo, nem quanto tempo ficamos assistindo ao filme, nem sequer recordo do que aconteceu com o resto de meu dia.
O que até hoje não esqueço, é a sensação de estar descobrindo algo totalmente novo e diferente em minha vida. Vendo o que nunca  vi antes. E que mesmo ali – com aquela pouca idade -, podia afirmar, mudaria minha vida para todo o sempre. Paulo foi quem apresentou o choque que a nudez provoca em um garoto. Apresentou-me a fascinação que a beleza causa em um homem.
Fui exposto à forma feminina de um modo que nunca havia sido antes. Eu queria congelar o mundo, como Paulo congelava as cenas daquele filme, para viver naquele momento por uma semana, um mês, anos, para sempre. Nunca me sentir tão completo. Até hoje acho que foi uma das coisas mais belas que já ocorreu em minha vida.

- Vê... é meio fraquinho... Disse Paulo, tirando a fita e a levando ao quarto do pai.
- É mesmo... – eu não entendia porque o filme era ‘’meio fraquinho’’ mas achei melhor concordar com meu amigo – que parecia entender do assunto melhor do que eu.
- Tem coisa melhor por ai... Mas papai não as deixa tão as solta assim, se um dia eu as encontrar, te chamo aqui para vê -  finalizou Paulo, voltando a ligar o vídeo game e se jogando ao tapete da sala. ‘’Buceta. Esse filme aqui não mostra buceta, mas têm outros que dá para vê direitinho... ’’ Completou meu amigo, enquanto jogava.
Obviamente eu sabia o que a palavra queria dizer, mas somente agora percebi que eu nunca havia visto uma ... buceta em minha vida. Certamente deveria ser algo ainda mais maravilhoso do que peitos, já que ficavam tão bem escondidas.

Nunca prestei muita atenção em garotas – claro que achava algumas bonitas- mas agora era completamente diferente. Era como se cada uma delas tivesse algo a esconder do mundo. E fosse o que fosse, eu queria vê. Passei a prestar atenção a cada mulher que via na tv, em revistas, no ônibus a caminho da escola, e principalmente nas ruas. Dedicava-me o maximo possível a cada detalhe de seus rostos, de seus corpos, nos desenhos que as roupas faziam nestes. Prestava atenção a cada corte de cabelo, a suavidade dos traços de umas e a agressividade dos de outra. Algumas passavam por mim rápido demais, outras quando me pegavam as encarando retribuíam o olhar, algumas até mesmo ensaiavam um leve sorriso. Não pareciam se incomodar comigo as olhando, pareciam até mesmo gostar.
Nada me passava em branco, uma pinta na bochecha. Uma perna mais desenhada do que a outra. As infinitas possibilidades dos cortes de cabelo de cada uma delas. Batons. Olhos com contornos mais escuros. O olhar daquelas que me percebiam as observando. O tom de voz, o jeito dissimulado de cada uma delas conversar. Tudo me provocava, tudo me fazia quero olhar mais. Era como se o mundo tivesse começado de novo. Tivesse começado agora.

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Quando às aulas voltaram, ficou ainda mais difícil prestar atenção naquelas coisas de português e matemática. Nunca notei antes, mas minha sala possuía um numero bem maior de meninas do que de meninos. E, apesar de algumas serem minhas amigas há anos, é de modo geral a turma ser praticamente a mesma desde que comecei a estudar, era como se todas me fossem totalmente estranhas. Não despertavam em mim o mesmo interesse do que as mulheres grandes que via nas ruas, mas ainda assim, era estranho conversar ou brincar com elas novamente. Eu não queria conversar e brincar com elas. Eu queria mesmo era parar o tempo como naquela tarde na casa de Paulo, e olhar cada detalhe de seus corpos. Tocar cada centímetro de pele. Cheirar. Lamber. Reparar nelas de verdade. Reparar nelas como nunca havia reparado antes. E depois apertar novamente o play e lhes devorem a vida.
Naquele mesmo ano comecei a desenhar. Não que não soubesse desenhar antes, mas naquele restante de ano eu senti uma vontade maior de o fazê-lo. Passei a desenhar mais e ainda melhor do que antes. Desenhava sobretudo formas femininas. Traços leves e sutis. Não tinha mais vontade de desenhar figuras de ação – fato que meus amigos reprovavam. A figura mais bonito que desenhei nesta época, foi um desenho sem titulo. Batizava meus traços com nomes femininos, mas com aquele em especifico não conseguia me decidir por um- alias nesta época, percebi que os nomes femininos soavam melhores do que os nomes masculinos. Era uma nova mania minha, por nome em meus desenhos. Ana, Fernanda, Marcela, Thais, Patrícia, Julia. Não era difícil pensar em um nome, o problema é que nenhum parecia servia para este desenho.

-hmmm. Parece com alguém que conheço – disse Paulo quando viu meu desenho.
-Quem? – Perguntei curioso.
- Se parece muito com a ... .

Desenhei uma menina magrinha que usava vestido e um sapatinho fechado. A menina em meu desenho parecia estar bastante triste, toda ‘’pintada’’ em cinza. Não era possível vê seus olhos, pois seus longos cabelos cobriam-lhe toda a expressão. Cabelos que eram a única parte de seu corpo que colorir, feitos em cor laranja.
Essa foi a primeira vez que pintei sem ‘’usar cores’’, de modo geral, meus desenhos são coloridos. Mas este aqui saiu diferente. Todo cinza, exceto pelos cabelos tingidos de laranja. O desenho da menina magra, era sem sombra de duvidas um retrato de ... . Mas a razão te o tê-lo feito, eu não sabia dizer. Desde que as aulas voltaram eu sequer prestara atenção a nuca de ... novamente. Apenas umas poucas vezes, muito mais por descuido do que por vontade – afinal, havia descoberto um mar de garotas ao meu redor, e me fixa em uma só ilha, seria um ato de egoísmo.
Mas não havia como negar. O desenha era mesmo ... .

- Mostre a ela – disse Paulo tranquilamente.
- Que?!- respondi com espanto.
- Mostre o desenho para ... .
-Mas eu nunca falei com ela. Alias eu nem sei o nome dela direito.
  
- Isso não importa! Só lhe entregue o desenho, e vocês começarão a se falar. Simples. E o nome dela é ..., e você sabe muito bem disso. – concluiu Paulo como se eu tivesse entendido o nome que ele  pronunciara.

A idéia de falar com a menininha ruiva me perturbou durante semanas. Só de pensar minhas mãos tremiam e minha garganta secava - ... Mas que porra de nome é este!? Por horas me pegava pensando como seria o rosto dela – eu não lembrava bem .... Era-me como uma mancha rosa agora, meio que um borrão em volta de um sombreado laranja – era arte abstrata, descobrir depois -. Esse era o meu principal motivo para tomar coragem e lhe entregar o desenho, vê seu rosto.
A essa altura eu sentia que já havia prestado atenção o bastante em todas as meninas da sala de aula. Todas menos uma, todas menos .... E era como uma obrigação fazê-lo. Como uma criança que precisa completar um álbum de figurinhas.
Olhei o desenho durante horas sonzinho em meu quarto. Retoquei alguns traços do cabelo, e tomei da decisão: amanha, eu entrego.
Pensei em colocar um título acima do desenho antes de entregá-lo. Pensei durante horas... 


... mas que porra de nome é esse?!