segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

A garota que veio de longe




Devo confessar que, ao vê pela primeira vez em minha vida, uma garota nua, a única sensação da qual me recordo ainda hoje, é a de total estranhamento, de desconforto.
Éramos um grupo de alunos comuns, em uma escola comum de Goiânia. Nada de anormal acontecia em nossas vidas naquela época. Éramos crianças e tínhamos uma vida de crianças. Os dias se resumiam em ir a escola, voltar para casa e a passar o restante do tempo juntos, ora brincando, ora jogando videogame (coisa que na época julgávamos ser da mais alta seriedade, e por isso, ainda hoje a coloco em um patamar acima do brincar). Olhando para trás, pensando a vida de antes com os olhos de hoje, fica mais do que evidente que ... foi o primeiro grande ‘’acontecimento’’ em minha vida.
Não consigo lembrar com exatidão do dia em que chegou em nossa escola. Lembro-me que a menina extremamente magra, com manchinhas pelo rosto (não eram sardas, eram manchas mesmo) e de cabelos alaranjados, chegou a sala numero 09 em um dia chuvoso e frio. Era o começo do ano letivo de 1999. Nunca havia visto uma chuva como aquela: serena, tranqüila. Uma chuva em que os filetes de água desciam do céu como que em uma linha reta, direto para o solo, sem raios ou trovões. Apenas o som da água caindo como se um chuveiro estivesse ligado lá fora. Além de uma chuva como aquela, nunca tinha visto uma menina de cabelos ruivos antes. O rosto de ... nunca me saiu da memória. Seus cabelos emaranhados, de cor estranha, meio molhados e muito mal penteados, escondiam seus olhos (os quais eu não pude vê a cor).
Aula de matemática ou português, a coordenadora entrou sem ao menos pedir licença. Uma mulher magra e de cabelos a altura do ombro, de rosto muito fino e chupado, disse: ''Pessoal, essa aqui é a ... e ela irá passar este ano conosco. Dêem boas vindas a ela''. E em seguida um coro uníssono de vozes infantis, exclamou em alto e bom tom:‘’bem- vinda ...’’. Toda a turma desejou boas-vindas a ..., exceto eu, que continue mudo, pensando no nome que a coordenadora acabara de dizer ‘’ essa aqui é a ...’’ Eu nunca fui capaz de pronunciar aquele nome. Certamente era algo alemão ou a junção de dois nomes em um só. ... o nome mais estranho que ouvi até hoje. ‘’Muito bem ..., sente-se onde quiser.’’, disse a professora fazendo um afago nos cabelos  molhados de ... .
... Sentou a primeira cadeira a sua frente, sem levantar o olhar nem sequer uma única vez.
Durante os dois primeiros meses daquele ano, simplesmente nada aconteceu. ... chegava cedo, sentava-se na primeira cadeira da primeira fila (contando-se da esquerda para a direita. Ali pertinho da porta), e saia assim que a sineta tocava. Ao sair portão afora, entrava sempre em um carro preto, meio velho, que a esperava, sempre pontualmente. Nunca vi ... no recreio ou conversando com alguém – nem mesmo com outras meninas -. Pra ser sincero, durante os primeiros dois messes de aula, não vi sequer o rosto de ... , tudo que enxergava eram seus cabelos encaracolados (meios esfarofados na verdade), alaranjados e longos. Ora presos para cima, deixando parte de sua nuca a mostra, mas via de regra sempre soltos e avoaçados. O meu lugar cativo era a última cadeira da fila do meio. De modo que tinha a visão completa de toda a sala, e conseguia conversar sem ser notado pela professora. Era o melhor lugar para se sentar, porém, dali, tudo que conseguia vê de ... era sua nuca, ou a nuvem laranja que seus cabelos soltos pareciam desenhar.

- Ela é estranha, não? - Perguntou Paulo, meu melhor amigo desde sempre. Paulo é cerca de três ou quatro anos mais velho do que qualquer aluno da escola. Paulo nunca explicou o porque disto, e eu nunca fiz muita questão de saber. Começamos juntos já na primeira série e seguimos juntos até o terceiro ano do ensino médio. Não sei se por ser mais velho, ou seja lá por qual motivo fosse, Paulo sempre foi para mim uma espécie de tutor, de conselheiro.
Ela quem? – respondi
A menininha ali, a novata- fez um sinal com os dedos na direção de ...
Ah, sim! Muito estranha mesmo!
É... Estranha,  porém, bonita...

Nunca prestei atenção, mas Paulo tinha toda a razão do mundo, ... era mesmo muito bonita. Destacava-se (meio que literalmente) das demais meninas da turma. Na verdade, desde o comentário de meu amigo, desde aquele dia ‘’beleza’’ para mim, passou a ser sinônimo de ‘’estranho’’ de ‘’tímido’’, de ‘’fora do comum’’. ... Passou a ser um ideal para tudo que vim a considerar belo na vida. ‘’Certamente ... é tímida’’ – continuo Paulo, sem tirar os olhos da nuca de ... .
Aqueles comentários alertou-me sobre outra coisa para além da beleza de ... : Paulo, assim como eu, estava prestando atenção na nuca dela.

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O primeiro semestre na escola passou entre coisas que não consigo lembrar e a nuca de ... da qual me recordo com a nitidez de uma foto impressa. Eram as férias de julho de 1999, Paulo e eu nos encontrávamos todas as tardes, em sua casa – ele que morava duas ruas acima -, para jogarmos Super Nintendo e eventualmente futebol. No entanto, naquela tarde no meio do mês, Paulo não quis jogar nem uma coisa nem outra. Disse-me ainda ao portão que queria mostrar uma coisa que tinha descoberto. Era preciso guarda segredo absoluto.
Fiz minha promessa solene e entrei.
Pornografia.
Sempre ficávamos sozinhos. Mesmo durante as férias, os pais de meu melhor amigo nunca estavam por lá, no entanto era a primeira vez que Paulo mostrava-me aquela fita.  Disse meio apressado e eufórico que a encontroou nas coisas de seu pai enquanto procurava por um meião de futebol. Contou essa historia com a voz meio engasgada, balançando a fita no ar freneticamente, enquanto eu, sentado ao chão de sua sala, a seguia com o olhar, como se fosse um biscoito e eu o cachorrinho. Finalizou com um suspiro longo e profundo, colocando o filme para rodar. Nunca pensei que podia existir algo como aquilo, nem ao menos sabia que era permitido filmar aquelas coisas. Um filme em que a única coisa que importava eram os peitos de uma moça loira.
O que Paulo reproduzia com extrema excitação na tv de sua sala, era um soft-porn dos mais leves, mas que a época, me pareceu ser coisa de outro mundo. A atriz era loira e de seios muito, mas muito fartos, existia uma historinha entre as cenas de nudez, mas Paulo as pulava, adiantando a fita e  voltando a parar-la com extrema exatidão onde a nudez recomeçava – aquilo deu a sensação que meu amigo já assistira aquele filme milhares de vezes -. Sempre que a loirinha aparecia nua em cena, o foco da câmera se voltava para seus peitos, ora ou outra para sua fisionomia (que lembrava as caretas de alguém com muita dor), e quase nunca para o rapaz que dividia a cena com ela. Não lembro de tudo, nem quanto tempo ficamos assistindo ao filme, nem sequer recordo do que aconteceu com o resto de meu dia.
O que até hoje não esqueço, é a sensação de estar descobrindo algo totalmente novo e diferente em minha vida. Vendo o que nunca  vi antes. E que mesmo ali – com aquela pouca idade -, podia afirmar, mudaria minha vida para todo o sempre. Paulo foi quem apresentou o choque que a nudez provoca em um garoto. Apresentou-me a fascinação que a beleza causa em um homem.
Fui exposto à forma feminina de um modo que nunca havia sido antes. Eu queria congelar o mundo, como Paulo congelava as cenas daquele filme, para viver naquele momento por uma semana, um mês, anos, para sempre. Nunca me sentir tão completo. Até hoje acho que foi uma das coisas mais belas que já ocorreu em minha vida.

- Vê... é meio fraquinho... Disse Paulo, tirando a fita e a levando ao quarto do pai.
- É mesmo... – eu não entendia porque o filme era ‘’meio fraquinho’’ mas achei melhor concordar com meu amigo – que parecia entender do assunto melhor do que eu.
- Tem coisa melhor por ai... Mas papai não as deixa tão as solta assim, se um dia eu as encontrar, te chamo aqui para vê -  finalizou Paulo, voltando a ligar o vídeo game e se jogando ao tapete da sala. ‘’Buceta. Esse filme aqui não mostra buceta, mas têm outros que dá para vê direitinho... ’’ Completou meu amigo, enquanto jogava.
Obviamente eu sabia o que a palavra queria dizer, mas somente agora percebi que eu nunca havia visto uma ... buceta em minha vida. Certamente deveria ser algo ainda mais maravilhoso do que peitos, já que ficavam tão bem escondidas.

Nunca prestei muita atenção em garotas – claro que achava algumas bonitas- mas agora era completamente diferente. Era como se cada uma delas tivesse algo a esconder do mundo. E fosse o que fosse, eu queria vê. Passei a prestar atenção a cada mulher que via na tv, em revistas, no ônibus a caminho da escola, e principalmente nas ruas. Dedicava-me o maximo possível a cada detalhe de seus rostos, de seus corpos, nos desenhos que as roupas faziam nestes. Prestava atenção a cada corte de cabelo, a suavidade dos traços de umas e a agressividade dos de outra. Algumas passavam por mim rápido demais, outras quando me pegavam as encarando retribuíam o olhar, algumas até mesmo ensaiavam um leve sorriso. Não pareciam se incomodar comigo as olhando, pareciam até mesmo gostar.
Nada me passava em branco, uma pinta na bochecha. Uma perna mais desenhada do que a outra. As infinitas possibilidades dos cortes de cabelo de cada uma delas. Batons. Olhos com contornos mais escuros. O olhar daquelas que me percebiam as observando. O tom de voz, o jeito dissimulado de cada uma delas conversar. Tudo me provocava, tudo me fazia quero olhar mais. Era como se o mundo tivesse começado de novo. Tivesse começado agora.

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Quando às aulas voltaram, ficou ainda mais difícil prestar atenção naquelas coisas de português e matemática. Nunca notei antes, mas minha sala possuía um numero bem maior de meninas do que de meninos. E, apesar de algumas serem minhas amigas há anos, é de modo geral a turma ser praticamente a mesma desde que comecei a estudar, era como se todas me fossem totalmente estranhas. Não despertavam em mim o mesmo interesse do que as mulheres grandes que via nas ruas, mas ainda assim, era estranho conversar ou brincar com elas novamente. Eu não queria conversar e brincar com elas. Eu queria mesmo era parar o tempo como naquela tarde na casa de Paulo, e olhar cada detalhe de seus corpos. Tocar cada centímetro de pele. Cheirar. Lamber. Reparar nelas de verdade. Reparar nelas como nunca havia reparado antes. E depois apertar novamente o play e lhes devorem a vida.
Naquele mesmo ano comecei a desenhar. Não que não soubesse desenhar antes, mas naquele restante de ano eu senti uma vontade maior de o fazê-lo. Passei a desenhar mais e ainda melhor do que antes. Desenhava sobretudo formas femininas. Traços leves e sutis. Não tinha mais vontade de desenhar figuras de ação – fato que meus amigos reprovavam. A figura mais bonito que desenhei nesta época, foi um desenho sem titulo. Batizava meus traços com nomes femininos, mas com aquele em especifico não conseguia me decidir por um- alias nesta época, percebi que os nomes femininos soavam melhores do que os nomes masculinos. Era uma nova mania minha, por nome em meus desenhos. Ana, Fernanda, Marcela, Thais, Patrícia, Julia. Não era difícil pensar em um nome, o problema é que nenhum parecia servia para este desenho.

-hmmm. Parece com alguém que conheço – disse Paulo quando viu meu desenho.
-Quem? – Perguntei curioso.
- Se parece muito com a ... .

Desenhei uma menina magrinha que usava vestido e um sapatinho fechado. A menina em meu desenho parecia estar bastante triste, toda ‘’pintada’’ em cinza. Não era possível vê seus olhos, pois seus longos cabelos cobriam-lhe toda a expressão. Cabelos que eram a única parte de seu corpo que colorir, feitos em cor laranja.
Essa foi a primeira vez que pintei sem ‘’usar cores’’, de modo geral, meus desenhos são coloridos. Mas este aqui saiu diferente. Todo cinza, exceto pelos cabelos tingidos de laranja. O desenho da menina magra, era sem sombra de duvidas um retrato de ... . Mas a razão te o tê-lo feito, eu não sabia dizer. Desde que as aulas voltaram eu sequer prestara atenção a nuca de ... novamente. Apenas umas poucas vezes, muito mais por descuido do que por vontade – afinal, havia descoberto um mar de garotas ao meu redor, e me fixa em uma só ilha, seria um ato de egoísmo.
Mas não havia como negar. O desenha era mesmo ... .

- Mostre a ela – disse Paulo tranquilamente.
- Que?!- respondi com espanto.
- Mostre o desenho para ... .
-Mas eu nunca falei com ela. Alias eu nem sei o nome dela direito.
  
- Isso não importa! Só lhe entregue o desenho, e vocês começarão a se falar. Simples. E o nome dela é ..., e você sabe muito bem disso. – concluiu Paulo como se eu tivesse entendido o nome que ele  pronunciara.

A idéia de falar com a menininha ruiva me perturbou durante semanas. Só de pensar minhas mãos tremiam e minha garganta secava - ... Mas que porra de nome é este!? Por horas me pegava pensando como seria o rosto dela – eu não lembrava bem .... Era-me como uma mancha rosa agora, meio que um borrão em volta de um sombreado laranja – era arte abstrata, descobrir depois -. Esse era o meu principal motivo para tomar coragem e lhe entregar o desenho, vê seu rosto.
A essa altura eu sentia que já havia prestado atenção o bastante em todas as meninas da sala de aula. Todas menos uma, todas menos .... E era como uma obrigação fazê-lo. Como uma criança que precisa completar um álbum de figurinhas.
Olhei o desenho durante horas sonzinho em meu quarto. Retoquei alguns traços do cabelo, e tomei da decisão: amanha, eu entrego.
Pensei em colocar um título acima do desenho antes de entregá-lo. Pensei durante horas... 


... mas que porra de nome é esse?!

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